Por que o afastamento da escola começa antes do abandono?
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Neste texto, você vai encontrar três coisas:
- Primeiro, uma leitura breve sobre o porquê o afastamento da escola começa antes do abandono e por que a permanência precisa ser entendida como processo;
- Depois, um olhar sobre o que está ao alcance da escola, da gestão e da rede de apoio, sem tratar a evasão como se dependesse de uma única resposta;
- Por fim, uma reflexão sobre como projetos de cidadania podem contribuir para fortalecer vínculo, participação, convivência e sentido da escola, fatores que ajudam a sustentar a permanência.
Em muitas escolas, o afastamento não começa no dia em que o estudante deixa de aparecer. Ela começa antes, de forma mais silenciosa e difícil de captar, ou seja, quando as faltas se tornam mais frequentes, quando o caderno passa a ficar em branco, quando o rendimento diminui, quando o jovem se percebe cada vez menos vinculado ao que aprende e menos reconhecido no espaço escolar. Aos poucos, a escola, ainda que se esforce, vai perdendo a chance de reter esse estudante pela experiência de aprendizagem, de pertencimento e de perspectiva de futuro. Por isso, falar em evasão escolar exige deslocar o olhar de um evento final para o processo de fragilização gradual da permanência.
Esse ponto é importante, porque a evasão escolar é multifatorial e não pode ser explicada por uma única causa, nem enfrentada por uma única ação. Há fatores econômicos, territoriais, familiares, emocionais e institucionais envolvidos. Por isso, este texto não parte da ideia de que projetos de cidadania, sozinhos, resolvem a evasão. A proposta aqui é outra: mostrar como eles podem contribuir para fortalecer vínculo, pertencimento, participação e sentido da escola, fatores que ajudam a sustentar a permanência.
Essa leitura se torna ainda mais urgente quando observamos o cenário recente da educação básica. Segundo o texto-base, o Censo Escolar 2025, apresentado pelo MEC em fevereiro de 2026, registrou 46 milhões de matrículas em 2025, com queda de 2,3% em relação ao ano anterior, o recuo mais acentuado da última década. Mais do que um número isolado, esse dado funciona como sinal de alerta, porque indica que a permanência escolar voltou a exigir atenção central de gestores, educadores, redes públicas e organizações sociais. Quando a escola perde estudantes, perde também oportunidades de aprendizagem, proteção social e construção de futuro.
Esse risco, no entanto, não se distribui de maneira uniforme. Ele acompanha as desigualdades que estruturam a sociedade brasileira e incide com mais força sobre quem já enfrenta mais barreiras para permanecer. Dados citados no texto, divulgados pelo IBGE em 2018, mostram que, entre adolescentes de 15 a 17 anos, 11,8% dos jovens mais pobres haviam abandonado a escola, enquanto, entre os mais ricos, esse percentual era de 1,4%. A diferença, de aproximadamente oito vezes, ajuda a desmontar explicações simplistas baseadas em desinteresse individual. Na maior parte dos casos, a evasão não decorre de uma escolha livre e isolada, mas da sobreposição de obstáculos sociais, econômicos, territoriais e institucionais que tornam a continuidade cada vez mais difícil.
As razões para o afastamento também mudam conforme a etapa da escolarização. Nos anos iniciais do ensino fundamental, pesa fortemente a dificuldade de acesso, especialmente quando a distância entre casa e escola é grande, o transporte escolar é insuficiente ou não há um adulto disponível para acompanhar a criança no trajeto. Já no ensino médio, cresce a desmotivação. Muitos estudantes passam a perceber o currículo como excessivo, pouco conectado à vida concreta e distante das questões que atravessam seu cotidiano. Essa percepção aparece não apenas entre os alunos, mas também entre professores, que reconhecem os limites de uma experiência escolar que, muitas vezes, não consegue tornar o conteúdo mais significativo, mobilizável e relacionado ao futuro.
A condição econômica da família atravessa todas as etapas, mas tende a se tornar ainda mais decisiva na adolescência. Para complementar a renda doméstica, buscar alguma autonomia financeira ou responder a pressões familiares, muitos jovens entram precocemente no mercado de trabalho antes de concluir a escolarização. Alguns tentam conciliar estudo e emprego, mas, diante do cansaço, da incompatibilidade de horários e da sobrecarga, acabam priorizando o trabalho e interrompendo a trajetória escolar. Soma-se a isso a limitação de acesso à internet, a ausência de ambiente adequado para estudar, a insegurança alimentar e outras barreiras materiais que ampliam defasagens de aprendizagem, aumentam o risco de repetência e alimentam frustração e desânimo.
Mas a permanência escolar não depende apenas de condições materiais. Ela também é fortemente influenciada por fatores sociais, relacionais e territoriais. Quando o deslocamento é difícil, a rotina se torna inviável e os serviços do entorno são precários, o risco de abandono aumenta, realidade especialmente visível em áreas rurais e em regiões com infraestrutura limitada. Também pesa o clima escolar. Violência, discriminação, racismo, bullying e outras formas de hostilidade podem levar estudantes a evitar a escola e, em situações mais graves, a se afastar dela como forma de autoproteção. Ao mesmo tempo, sofrimento psíquico, baixa autoestima acadêmica e a ausência de apoio diante de dificuldades de aprendizagem, conflitos ou responsabilidades familiares fragilizam o vínculo com a escola e reforçam a necessidade de redes de proteção e práticas pedagógicas que sustentem acolhimento, previsibilidade e expectativa realista de aprendizagem.
Outro elemento que vem se tornando cada vez mais decisivo é a incerteza em relação ao futuro. Quando o jovem não consegue visualizar oportunidades reais a partir da escolarização, a educação tende a perder valor simbólico e prático. Esse enfraquecimento do sentido da escola costuma se intensificar quando o currículo não se traduz em competências mobilizáveis, como leitura crítica, argumentação, resolução de problemas, pesquisa, planejamento e participação, e quando os estudantes não enxergam caminhos possíveis para acessar ensino técnico, ensino superior e trabalho digno. Nesse sentido, como analisa Anne Wilians, presidente do INW, “Falar sobre educação no Brasil é, necessariamente, abordar a desigualdade. É preciso encurtar essa distância entre o que está na lei e o que chega, de fato, à vida dos jovens. Por isso, a sociedade e os governos devem oferecer ferramentas para que eles não apenas conheçam seus direitos, mas se percebam protagonistas das transformações que querem ver em seus territórios”.
Se a evasão é um processo, a resposta a ela também precisa ser. E, para a escola e para as organizações da sociedade civil, isso significa agir cedo, fortalecer vínculos, escutar de forma metodológica e transformar o cotidiano em aprendizagem com sentido. É nesse ponto que projetos de cidadania podem ganhar relevância.
O que a evasão produz na vida dos estudantes e no desenvolvimento do País
A evasão escolar produz efeitos profundos e duradouros, que atingem o estudante, a família, a comunidade e o próprio país. No plano individual, interromper os estudos tende a reduzir oportunidades de qualificação e inserção no mercado de trabalho, aumentando a probabilidade de ocupações informais, salários mais baixos e maior instabilidade ao longo da vida. Mas as consequências não se restringem à renda. A escolarização também amplia autonomia e capacidade de escolha, porque fortalece repertório, acesso à informação, leitura de contextos institucionais e capacidade de acionar direitos e serviços públicos. Quando esse percurso é interrompido, restringem-se não apenas trajetórias profissionais, mas também horizontes de participação social e de exercício da cidadania.
Há ainda impactos importantes sobre a dimensão subjetiva. Em muitos casos, o abandono escolar vem acompanhado de queda de autoestima, sentimento de insuficiência e enfraquecimento da confiança em si. Isso pode repercutir tanto nas relações pessoais quanto na postura do jovem diante de novos ambientes de formação e trabalho. Aos poucos, a soma dessas experiências alimenta desânimo, retraimento e a sensação de que não há caminho possível, o que aprofunda o afastamento de oportunidades futuras.
Do ponto de vista laboral, os efeitos também são conhecidos. A entrada no mercado de trabalho tende a se tornar mais difícil e, quando acontece, frequentemente ocorre em posições mais precárias, com baixa remuneração e menor proteção social. Em escala coletiva, esse cenário compromete a qualificação média da força de trabalho, reduz produtividade e afeta o desempenho econômico em diferentes setores.
Neste contexto, estimativa da Fundação Roberto Marinho e do Insper segundo a qual o Brasil perde cerca de R$ 220 bilhões por ano pelo fato de jovens não concluírem a educação básica, valor equivalente a aproximadamente 3,3% do PIB. Esse dado ajuda a deixar claro que a evasão não é apenas um problema escolar, mas um problema de desenvolvimento. Seus efeitos alcançam renda, produtividade, desigualdade e capacidade de o país sustentar políticas públicas de forma mais robusta. Do ponto de vista da cidadania, reforça-se a ideia de que garantir permanência e aprendizagem também significa garantir condições para participação informada, exercício de direitos e fortalecimento da cultura da legalidade.
Outro aspecto decisivo é o impacto sobre saúde mental e desenvolvimento socioemocional. Para muitos adolescentes, a escola funciona como fator de proteção, oferecendo rotina, convivência entre pares, vínculo com adultos de referência, acesso à alimentação e certa estabilidade em meio a contextos marcados por vulnerabilidade. Quando esse vínculo se rompe, cresce o risco de isolamento, desproteção e agravamento de sofrimentos psíquicos que já vinham se acumulando. O texto cita dado do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde, publicado em 2026, segundo o qual cerca de 20% dos jovens entre 10 e 19 anos enfrentam algum tipo de transtorno mental, informação que ajuda a dimensionar por que permanência escolar também precisa ser compreendida como estratégia de cuidado e proteção social. Além disso, a literatura científica internacional aponta associação consistente entre transtornos mentais e maior risco de evasão, sugerindo uma dinâmica que pode se retroalimentar, em que o sofrimento psíquico aumenta a probabilidade de abandono e o afastamento da escola reduz redes de apoio, ampliando vulnerabilidades.
Há, por fim, uma consequência democrática que precisa ser explicitada. A evasão escolar fragiliza a cidadania porque reduz oportunidades de aprender, na prática, competências que sustentam participação informada, como leitura crítica, argumentação, compreensão de direitos, convivência com a diversidade e responsabilização coletiva. Quando crianças, adolescentes e jovens ficam fora da escola, diminui a exposição cotidiana a experiências pedagógicas que estruturam cultura da legalidade, participação e vida democrática. Isso tende a afetar não apenas a capacidade individual de acessar direitos e serviços, mas também a capacidade coletiva de incidir sobre decisões públicas. Em 2025, o UNICEF alertou que 993 mil crianças e adolescentes ainda não frequentavam a escola no Brasil, com base em dados da PNAD Contínua do IBGE, número que ajuda a dimensionar a escala do desafio e a urgência de respostas articuladas.
Combater a evasão exige política pública, proteção social e sentido para permanecer
Enfrentar a evasão escolar não depende de uma única medida, nem pode ser tratado como responsabilidade exclusiva da escola. Trata-se de uma estratégia contínua que exige articulação entre poder público, comunidade e famílias. Mais do que manter o estudante formalmente matriculado, o desafio é garantir condições reais de permanência, para que frequentar a escola seja possível, seguro e faça sentido na vida cotidiana.
No campo das políticas educacionais, o primeiro eixo é fortalecer a própria escola. Isso envolve melhorar infraestrutura, garantir transporte quando necessário, ampliar conectividade e recursos pedagógicos, investir em formação continuada e valorização dos professores, além de qualificar a gestão pedagógica. Mas isso, por si só, não basta. Também é preciso enfrentar a desmotivação, especialmente no ensino médio, com currículos mais conectados à realidade dos estudantes, projetos integradores, orientação vocacional e oportunidades concretas de protagonismo juvenil. Quando a aprendizagem passa a ser percebida como algo relevante, aplicável e relacionado ao futuro, o vínculo com a escola tende a se fortalecer.
Um segundo eixo indispensável envolve políticas de proteção social e de enfrentamento da vulnerabilidade econômica. A evasão está frequentemente associada à necessidade de trabalhar, à insegurança alimentar, à instabilidade familiar e a outras pressões que tornam a permanência escolar difícil de sustentar. Programas de transferência de renda, incentivos financeiros e medidas que condicionem benefícios à matrícula e à frequência podem ter efeito direto sobre a continuidade da trajetória escolar, ao aliviar pressões imediatas e criar condições para que o jovem não precise abandonar os estudos para gerar renda.
Há ainda um terceiro eixo, igualmente decisivo, que é construir pontes entre escola e território. Quanto mais a escola conhece a realidade das famílias e se articula com a rede local, assistência social, saúde, conselhos tutelares, organizações comunitárias e projetos socioeducativos, maior sua capacidade de identificar riscos precocemente e agir antes que faltas recorrentes se transformem em abandono. Nesse sentido, busca ativa, acompanhamento individualizado, reforço escolar, mediação de conflitos, prevenção ao bullying e apoio psicossocial são estratégias fundamentais para recompor vínculo, acolher situações de violência e reduzir o afastamento.
Nesse ponto, vale um cuidado importante. Escutar é essencial, mas escutar não basta. A escuta só se torna estratégia quando vira parte inerente do processo, ou seja, registrar sinais, identificar barreiras, acionar a rede adequada e acompanhar o que aconteceu depois. É essa passagem da conversa para o encaminhamento que diferencia uma boa intenção de uma resposta institucional mais consistente..
Como a educação cidadã pode contribuir com a permanência
É nesse cenário que projetos de educação cidadã se mostram relevantes. Quando são implementados com intencionalidade, seus efeitos não se limitam ao conteúdo aprendido. Eles aparecem na experiência escolar como um todo, na forma como os jovens passam a se perceber, a interpretar situações do cotidiano e a se posicionar diante do mundo. Em geral, essas mudanças começam de modo discreto, com novas palavras para nomear experiências e com mais repertório para compreender o que antes era vivido sem linguagem, e avançam gradualmente para uma reorganização de critérios, referências e atitudes. É justamente essa transformação, mais experiencial do que meramente informativa, que ajuda a explicar por que a educação cidadã pode operar como estratégia de prevenção à evasão.
Um primeiro eixo dessa transformação é o reconhecimento de si como sujeito de direitos. Muitos jovens verbalizam descobertas aparentemente simples, mas de grande impacto formativo, como quando dizem que não sabiam que determinada situação era errada ou que nem imaginavam ter certo direito. A partir daí, direitos deixam de ser um vocabulário distante e passam a funcionar como referência concreta para interpretar a própria vida. Quando o jovem adquire linguagem para identificar violências, injustiças e desigualdades, e quando percebe que existem caminhos institucionais e comunitários para enfrentar problemas, parte do que antes era naturalizado passa a ser reconhecido como violação ou questão pública. Isso altera sua relação com a escola, porque a escola deixa de ser apenas lugar de avaliação e passa a ser percebida como espaço onde se aprende a compreender, nomear e agir.
Em paralelo, muda também a relação do jovem com a própria voz. Muitos entram em processos formativos se descrevendo como tímidos, inseguros ou com medo de falar. Ao longo do percurso, começam a participar mais, formular perguntas, sustentar argumentos e questionar situações que consideram injustas. Não se trata de uma ruptura instantânea, mas de um processo gradual de autorização. Nessa trajetória, o jovem aprende que discordar com respeito, argumentar e pedir explicações são práticas legítimas e socialmente valorizadas. Aprende também que participar não é apenas falar, mas construir critérios, pactuar regras e assumir responsabilidades no coletivo. Quando a escola cria espaços reais de participação, como grêmios estudantis, assembleias ou instâncias de representação, a experiência escolar ganha densidade, porque o estudante passa a perceber que sua presença produz efeito. Esse tipo de reconhecimento fortalece vínculo e ajuda a reduzir a sensação de inutilidade que frequentemente alimenta a desmotivação.
Também se transforma o olhar sobre o outro e sobre o território. Quando temas como racismo, diversidade, direitos, proteção integral e democracia entram em debate com método e cuidado, surgem reflexões que reorganizam referências morais e sociais. Alguns jovens passam a reconhecer desigualdades que atravessam a própria trajetória, enquanto outros identificam privilégios que antes lhes pareciam invisíveis. Esse deslocamento repercute na convivência, porque amplia capacidade de escuta, reduz conflitos baseados em estigmas e favorece a construção de acordos mais justos. Essa dimensão importa diretamente para a permanência escolar, já que parte importante do afastamento está associada a experiências de violência, discriminação e bullying. Quando a escola institui práticas consistentes de convivência, mediação e participação, ela se torna mais previsível, mais segura e mais habitável.
Essas mudanças internas antecedem a ação, mas já são, em si mesmas, decisivas. Antes de fazer diferente, o jovem passa a ver diferente, com mais consciência e mais segurança para se posicionar. Um relato que evidencia essa mudança, especialmente no campo da leitura crítica de informação, é o de um jovem que participou do projeto Compartilhando Direitos, do INW, ao afirmar “Antes eu acreditava em qualquer informação que chegava no ‘zap’. Agora eu já penso, quem mandou isso, de que site veio, eu não saio mais repassando sem ver.” Esse tipo de fala, quando aparece em processos formativos, indica avanço na capacidade de avaliar fontes e sustentar decisões informadas, o que é particularmente relevante em contextos marcados por desinformação. Quando o jovem desenvolve critérios, ele passa a se orientar menos por impulsos e mais por argumentos, o que melhora a qualidade da convivência e reduz ruídos que frequentemente se transformam em conflito.
Com o tempo, o repertório tende a se ampliar ainda mais. Os jovens demonstram mais clareza para identificar direitos e deveres, reconhecer violações e falar sobre elas com mais precisão. Passam também a compreender melhor o que é Estado, o que é democracia e como esses elementos se conectam à vida cotidiana e aos acontecimentos do presente. Ao aprofundar debates, começam a questionar explicações simplistas sobre sucesso, fracasso e oportunidades, sobretudo quando analisam desigualdades, racismo e discursos meritocráticos. É natural que surjam contradições nesse percurso. A linguagem de direitos pode conviver, por algum tempo, com desconfiança em relação a instituições ou com soluções punitivistas para problemas complexos. Isso não precisa ser lido como fracasso. Muitas vezes, indica justamente que ideias antigas e novas estão em disputa, e que o jovem começa a construir critérios mais sólidos para interpretar o mundo.
Uma fala de uma jovem que também participou do Compartilhando Direitos ilustra essa mudança de lente ao comentar uma situação vivida em sua família, após um módulo sobre violência contra a mulher, “O que aconteceu foi que um homem simplesmente quebrou vários objetos de uma parente minha. Antes eu acharia que estava errado, mas não pensaria nisso como violência contra a mulher. Agora eu percebo que é. Ele não bateu nela, mas destruiu tudo o que ela tinha conquistado.” O que esse relato evidencia é que aprender cidadania não se reduz a memorizar conceitos, envolve desenvolver capacidade de interpretar a realidade com mais precisão ética e social, e esse deslocamento, para muitos jovens, se torna ponto de partida para revisar padrões de naturalização de violências, e para reconhecer que conflitos e injustiças podem ser enfrentados com linguagem, critérios e encaminhamentos.
A conexão com a permanência aparece justamente aí. Projetos de cidadania não substituem política pública, transporte, proteção social ou apoio psicossocial. Mas podem contribuir para fatores reconhecidamente importantes para que o estudante permaneça, como vínculo com a escola, pertencimento, segurança, participação e sentido para aprender. Quando a escola organiza práticas de convivência, escuta e participação, de modo que o estudante encontre regras compreensíveis, espaços reais de fala e oportunidades de se implicar, ela deixa de ser apenas obrigação externa e passa a ser percebida como espaço em que ele é visto e pode construir caminhos.
Além disso, projetos de cidadania costumam fortalecer rotinas de diálogo e pactos de convivência, o que contribui para melhorar o clima institucional. Ao tratar participação, mediação de conflitos, prevenção ao bullying e reconhecimento de direitos, a escola se torna mais segura e mais previsível, reduzindo um motivo frequente de afastamento, que é evitar o ambiente escolar para se proteger emocionalmente ou fisicamente.
Outro efeito importante é o fortalecimento de redes de apoio. Grêmios estudantis, rodas de conversa, projetos coletivos e ações de investigação do território criam laços entre estudantes, professores, famílias e comunidade. Esses laços funcionam como rede de cuidado, porque ajudam a perceber sinais de risco, acolher com mais rapidez e encaminhar situações antes que faltas pontuais se transformem em abandono. A educação cidadã, nesse sentido, não substitui políticas de permanência, mas qualifica a capacidade da escola de agir cedo, com mais informação, coordenação e sensibilidade.
Ao conectar currículo a problemas reais do território e a possibilidades concretas de transformação, o estudo também recupera sentido e valor. Isso incide diretamente sobre a desmotivação, que é um dos motores mais recorrentes do afastamento, especialmente no ensino médio. Quando o jovem entende por que aprende, para que aprende e como aquele conhecimento pode ajudá-lo a ler o mundo, participar, defender direitos e construir futuro, a escola passa a fazer mais sentido na sua trajetória.
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Materiais abertos
O Instituto Nelson Wilians disponibiliza materiais pedagógicos gratuitos para apoiar educadores no trabalho com educação para a cidadania, cultura da legalidade e direitos humanos em sala de aula. Para gestores, esses materiais também podem funcionar como apoio para projetos, eletivas, trilhas formativas e ações de fortalecimento de vínculo e participação.
Materiais abertos do Compartilhando Direitos
- Guias e recursos pedagógicos prontos para uso em sala de aula ou em atividades socioeducativas, com roteiros de condução, sugestões de dinâmicas e orientações para trabalhar direitos, participação e cultura da legalidade de forma aplicada.
- Iniciativa do INW em cooperação com a UNESCO no Brasil, voltada à educação para a cidadania e ao fortalecimento de práticas pedagógicas em temas contemporâneos. Os conteúdos apoiam educadores a conduzir debates, trabalhar participação e desenvolver competências cidadãs com mais intencionalidade e segurança, complementando o Compartilhando Direitos ao ampliar repertório e trazer novas possibilidades de aplicação para contextos escolares e comunitários.
