O que celebrar no Dia Mundial do Refugiado?

Por Laura Fatio, Cofundadora e Gerente de Investimentos da Refúgio 343

As Nações Unidas instituíram em 2001, que 20 de junho seria o Dia Mundial do Refugiado. Vinte anos depois, o que mudou? É um dia para celebrar, ou para refletir?

Certamente, muita coisa mudou – e não necessariamente para melhor, infelizmente. Sabe-se que – pela primeira vez na história – 1% da humanidade encontra-se deslocada. Em números, são quase 80 milhões de pessoas que foram obrigadas a abandonar suas origens, número que dobrou na última década.

Um dos fatores que contribuiu para esse aumento foi a movimentação em massa de venezuelanos, que já configuram o segundo maior grupo populacional deslocado do mundo. Mais de 5,6 milhões de pessoas já migraram do país para fugir da insegurança econômica, da fome, da violência e da falta de serviços essenciais.

O Brasil é um dos países que mais recebe venezuelanos no mundo depois da Colômbia, Peru, Chile e Equador. Já foram mais de 265 mil refugiados e migrantes vindos da Venezuela regularizados em nosso país.

Para apoiar o fluxo migratório em território brasileiro, existem 11 abrigos em Boa Vista e dois em Pacaraima, com capacidade de juntos acolherem mais de 8,3 mil pessoas. No entanto, ainda existem mais de 4 mil refugiados e migrantes vivendo sem infraestrutura e acesso a serviços básicos, em ocupações espontâneas ou nas ruas de Roraima.

Hoje, a Organização Humanitária Refúgio 343 atua no abrigamento, saúde, educação e interiorização. Trabalhamos incansavelmente para promover a reinserção socioeconômica de refugiados e migrantes no Brasil. Por meio dos eixos de atuação, buscamos oferecer aos beneficiários recursos para se estabilizarem no país. Em menos de dois anos de atuação já acolhemos mais de 1.400 pessoas em 135 cidades de 16 estados brasileiros, dos quais 69% se encontram independentes. Ponto chave do nosso trabalho é o monitoramento das famílias interiorizadas, a fim de garantir que estejam integradas na sociedade no curto prazo.

Olhando para o futuro, vemos que as ondas migratórias continuarão a existir. Dados de uma pesquisa do Instituto pela Economia e pela Paz (IEP), publicados no portal TecMundo, mostra que 1,2 bilhão de pessoas se tornarão refugiadas do clima nos próximos 30 anos – o que é um curtíssimo espaço de tempo para agirmos. Secas e inundações agravarão a fome e os conflitos por água potável.

O terceiro setor tem um papel fundamental, oferecendo serviços aos refugiados e ajudando a garantir que tenham seus direitos humanos garantidos. Essencial nesse processo é também a parceria com empresas. Acreditamos no poder do setor privado e buscamos a união com instituições que queiram fazer a diferença no mundo. Esse é o papel do Instituto Nelson Wilians, que entrou em cena para fortalecer o trabalho do Refúgio 343, nos apoiando com um dos Direitos Humanos mais importantes: a Educação. A luta ainda é grande, há muito a ser feito. Diante disso, respondo à pergunta que fiz no início desse artigo: sim, é tempo de refletir – e agir! Precisamos nos unir.

Referências

ACNUR. https://www.acnur.org/portugues/

Plataforma Regional de Coordinación Interagencial. https://www.r4v.info/

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One thought

  • Reflexão importante e mais do que necessária para o atual momento em que vivemos com tantas desigualdades.
    Somos responsáveis pelo mundo que temos hoje e aquele que queremos deixar para as próximas gerações. Portanto, faz-se necessário partimos para ação, cada um com a sua responsabilidade social, o que passa por várias vertentes.
    Podemos e devemos contribuir neste processo!
    Como?
    O mundo que nos espera à frente é aquele que estamos construindo hoje.
    Temos inúmeros tarefas a cumprir.
    Desde exercer nosso direito ao voto, de forma responsável, escolhendo aqueles que realmente representam os anseios de um mundo melhor, democrático que englobe a inclusão e a preservação do planeta, como em nossas pequenas ações individuais e coletivas.
    É uma luta diária que inicia-se nos nossos lares e em todos nossos campos de atuação. Com pequenas ou grandes intervenções podemos contribuir para um projeto de nação em direção a este olhar, onde não há lugar para a intolerância, e consequentemente, a uma construção global.
    Somos responsáveis pela fome, pela inclusão, pela manutenção da democracia, por nossas florestas…
    Mais do que uma escolha é uma obrigação a que hoje somos convocados.
    Não é aceitável que milhões de pessoas sejam expulsas todos os dias de seu lugar de pertencimento por conta de guerras, catástrofes “naturais”, discriminação e fome.
    A tarefa é individual, coletiva, nacional e global. Nesse processo não podemos nos omitir!

    Claudia Fatio

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