LIVE: A luta por vidas negras importa

O Instituto Nelson Wilians e o Grupo Nelson Wilians, comprometidos com a diversidade étnico-racial, realizou na quinta-feira (11) uma conversa com o Dr. Raphael Vicente, Advogado, Professor, Coordenador Geral da Faculdade Zumbi dos Palmares e da Iniciativa Empresarial pela Igualdade. 

Na Live com a Dra. Anne Wilians, o professor conta que se dedica às causas de raça e direitos há 17 anos, e explica que a Iniciativa Empresarial pela Igualdade surgiu há 6 anos para tratar das práticas de sensibilização, promoção e inclusão no ambiente corporativo. O movimento hoje tem a adesão de 61 grandes empresas do país.

Quando a Dra. Anne pergunta sobre os movimentos de igualdade racial que vêm ganhando força pelo mundo, inclusive em nosso país, Dr. Raphael aponta que a luta contra o racismo no Brasil existe desde que o negro chegou aqui, inicialmente contra a escravidão, e depois contra os efeitos produzidos até hoje. A facilidade de comunicação contemporânea torna possível que a violência na força de racismo seja denunciada. 

Ambos concordam que, no Brasil, existem muitos casos de negros assassinados de formas cruéis e que não receberam a mesma projeção que no caso George Floyd, nos Estados Unidos. Mas que esse acontecimento foi importante para despertar o tema em pessoas que ainda não se atentaram à urgência do debate, e esperam surjam mudanças de visão, política e postura.

Dr. Raphael reforça que há dificuldade em tratar o racismo no Brasil, porque o tema não está oficialmente presente no sistema educacional brasileiro. Há ainda a resistência em diversos setores da sociedade que criam contradições sobre a luta, tratando-a como vitimismo por exemplo. Ele conta que o racismo se baseia em 5 elementos estéticos que definem acessos e oportunidades: cor da pele, formato do olho, nariz e boca e tipo de cabelo.

Ele conta também sobre a política de branqueamento, que se refere ao fato do Brasil ter oferecido benefícios aos imigrantes europeus para que eles oferecessem força de trabalho no país quando aconteceu a libertação de escravos negros. Na época, eles foram considerados fatores de atraso no desenvolvimento do Brasil. Essa decisão determinou políticas públicas que reverberam ainda em nossos dias.

Além disso, lembra que o racismo no nosso país é uma questão social, já que a distribuição de renda seria uma forma de romper com a estrutura vigente. No entanto, mesmo que o negro tenha acesso ao dinheiro, ele continua sendo desconsiderado pela sua cor. Como um possível caminho para essa desconstrução, Dr. Raphael sugere o exercício do diálogo com o negro, para que o branco possa absorver essa percepção. 

Ele ainda propõe fazer um recorte sobre quem é a mulher negra na sociedade brasileira. Ela é maioria na população feminina e quem ocupa mais cargos de informalidade. Lembra que no período de transição do trabalho agrícola para a indústria no país, o negro não era aceito nesse mercado formal, e as famílias passaram a ser sustentados por mulheres nas funções informais de lavadeiras e domésticas. 

O Professor conta que não é fácil compreender sozinho toda a história do racismo, por isso a Iniciativa Empresarial pela Igualdade  lançou o programa “Para entender o racismo e o antirracismo”, sugerindo leituras que visam contribuir com o processo de compreensão do tema. Trouxe como sugestão, alguns livros que já foram compartilhados por lá:

  • “Racismo e Antirracismo no Brasil”, de Antonio Sérgio Alfredo Guimarães
  • “Negros e Brancos em São Paulo: 1888 – 1988”, de George Reid Andrews
  • “Escravidão: Do primeiro leilão de cativos em Portugal até a morte de Zumbi dos Palmares”, de Laurentino Gomes

Para concluir, Dr. Raphael conta que a geração que hoje tem entre 5 e 6 anos de idade é a que vai colher toda essa construção. Os movimentos de hoje sinalizam esperança de que essa próxima geração consiga viver com mais tranquilidade, livre da violência e da estrutura que mata pessoas pelo critério da cor de pele.

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