Pela garantia dos direitos das crianças e dos adolescentes

Por Alcione Albanesi, fundadora e presidente dos Amigos do Bem.

Um marco de proteção para a infância e a adolescência, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) completa, no dia 13 de julho, 31 anos. A Lei 8.069 de 1990 é uma grande conquista da sociedade brasileira, reconhecendo crianças e adolescentes como sujeitos de direitos, com a proteção integral garantida nas mais diversas áreas.

São princípios fundamentais previstos no ECA o direito à vida e à saúde; o direito à liberdade, ao respeito e à dignidade; o direito à convivência familiar e comunitária, à educação, à cultura, ao esporte e ao lazer; o direito à profissionalização e à proteção ao trabalho, entre outros itens que asseguram o crescimento pleno, seguro e saudável de todas as crianças e jovens até seus 18 anos.

O ECA foi resultado de um amplo debate democrático e instituiu uma série de mudanças positivas para as crianças. Mesmo considerado um modelo de lei, inclusive internacionalmente, o Estatuto ainda precisa ser devidamente implementado e cumprido.

Faltam iniciativas público privadas que garantam realmente a proteção que se faz necessária para formar as novas gerações: alimentação, moradia, saúde, educação de qualidade, esporte, cultura, lazer. O Brasil é conhecido por ser um dos piores países do mundo para uma criança crescer. A insegurança alimentar, a falta de acesso à água e ao saneamento e a ausência da educação se somam a indicadores sociais de abuso, violência e altas taxas de mortalidade infantojuvenil.

Mas sempre me perguntam: “Alcione, há esperança?” Sempre digo que sim.

Como brasileira e fundadora dos Amigos do Bem, instituição que atende mais de 75 mil pessoas, todos os meses, no sertão nordestino, não desisto de acreditar na transformação e no potencial humano.

Acredito que, de forma simples, podemos fazer coisas extraordinárias. O nosso legado está no que aprendemos e fazemos todos os dias, nas pequenas atitudes que envolvem empatia, solidariedade e respeito pelo próximo.  Costumo dizer que o bem se aprende e também se ensina. Aprendi a fazer o bem com minha mãe, Guiomar de Oliveira Albanesi, que fundou creches na periferia de São Paulo, cuidando de milhares de crianças carentes. Ela é a minha inspiração e o meu exemplo de amor e generosidade.

Ao longo dos 28 anos do Amigos do Bem, transformamos milhares de vidas. São 140 povoados do sertão de Alagoas, Pernambuco e Ceará regularmente atendidos com projetos de educação, trabalho e renda, água e acesso à moradia, água e saúde. Hoje, mais de 10 mil crianças e jovens do sertão recebem ensino regular, cursos profissionalizantes, bolsas de faculdade e participam de atividades socioeducativas para se tornarem protagonistas da sua história e agentes multiplicadores do bem. São as primeiras gerações que se formam e já enxergam um futuro diferente.

Para fazer um trabalho como esse no sertão nordestino, é preciso determinação, coragem e o amor de muitos Amigos, que hoje somam mais de 10.300 voluntários. E neste período de pandemia, trabalhamos muito em nossa ação emergencial. A pandemia tem tornado o dia a dia de crianças e adolescentes do Nordeste ainda mais árido e difícil. A região é o maior foco de miséria do nosso país. São mais de 26 milhões de pessoas vivendo em extrema pobreza. Tudo parou, mas a fome não para: é uma batalha diária.

Para que o Estatuto da Criança e do Adolescente seja realmente posto em prática, precisamos nos unir, todos – sociedade civil, governo, empresas, instituições –, e agir a favor de meninas e meninos que clamam por uma vida digna e feliz. No sertão nordestino, nossas crianças moram na maioria das vezes em casas de barro. Infelizmente, não conseguimos dar moradia a todos, mas por meio da educação, estamos construindo uma nova realidade e permitindo que acessem um universo de possibilidades.

Um exemplo é a Bruna Carvalho, que conhecemos quando ela tinha sete anos e passava sede e fome. Hoje ela é nossa educadora do Centro de Transformação de Alagoas e Multiplicadora do Bem. A Bruna recebeu uma bolsa dos Amigos do Bem para a faculdade de Pedagogia e agora mostra para outros jovens e crianças que é possível sonhar, transformar e inspirar pessoas.

O meu maior sonho é fazer com que a miséria e a fome sejam lembrados apenas como fatos históricos no nosso país. Essa é a missão e a visão dos Amigos do Bem, que trabalha para que crianças e adolescentes, como a Bruna, estudem e escrevam seus futuros repletos de dignidade, saúde e cidadania, como felizes protagonistas de um Brasil cada melhor.

*Alcione Albanesi é fundadora e presidente dos Amigos do Bem. Considerada umas das maiores empreendedoras sociais do país, recebeu diversos prêmios, como Empreendedor Social Folha, Trip Transformador, Mulher Claudia, Empreendedora EY e foi homenageada como Cidadã Pernambucana e Cearense.

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